Uma História de Amor

 

 

 

À minha frente, as paredes são cinzentas. Da cor com que me sinto.        

Poderia até dizer que me sinto negro, devido ao escuro da amargura desta gripe que me invadiu e não me larga. Mas não quero ser tão catastrófico. Uma gripe não é propriamente uma doença e eu sei que as há bem piores que esta. Mas estar aqui, na sala de espera de um Centro de Saúde, abate qualquer um. No meio desta gente imensa e acabada, qualquer pessoa se sente um farrapo, uma insignificância, um zero, por se ter deixado entrar por aquela porta aberta de par em par, a permitir a entrada, mas de demorada saída.

Muitos não terão passado por isto. Ou porque, ainda jovens como eu, não apanharam uma doença que o justificasse; ou porque têm os seus sistemas próprios de saúde mais elitistas e asseados; ou, ainda, porque têm dinheiro suficiente para visitas domiciliárias do médico. Esses, os felizardos, não se sujeitam às traquinices dos vírus e viroses que pairam invisíveis no ar. Se algum mal apanharem por contágio, será porque, eles próprios, o libertaram dentro do espaço que é seu e é por isso justo que se infectem novamente.

Aqui não. Aqui eu, que tenho apenas uma gripe, uma doença sem categoria na categoria das doenças, sou obrigado a ficar inerte durante horas e horas ouvindo chamar por nomes que não são o meu, com as mãos caídas sobre o regaço. Regaço... Não, não me parece correcta esta palavra. Sem ter à mão um dicionário – esta deu-me vontade de rir. Um dicionário num Centro de Saúde! – sem ter à mão um dicionário, dizia, tenho cá na ideia que esta palavra tem mais a ver com as mulheres. Talvez o colo. Não. Também não. Colo pode ser confundido mais uma vez com aquela parte lisa – normalmente cheia de sardas ou sinais – acima do peito delas. Enfim, para que não haja dúvidas e, que me perdoem a franqueza, o melhor e menos dúbio é dizer que as mãos me caem sobre as partes. E que – já agora mantenhamos a frontalidade – é a muito custo que o meu cérebro as aperreia e as inibe de coçar o lugar onde descansam. Maldito sítio este (o local onde me encontro, não o que está sob as mãos). Parece que além dos divertidos vírus que saltitam sem se ver, haverá outros bichinhos mais terrestres e não menos saltitões pelo meio destas paredes.

E, sem querer, cá volto eu ao início. Às paredes.

Para aqueles que atrás referi e que, por sorte, nunca foram obrigados a tão penoso contacto, aqui deixo a minha humilde descrição do que à minha frente observo. Um dia, se continuarem a ter a alegria indescritível de não se verem obrigados a passar aquela porta, a passo de recém-nascido e recentíssimo andante, atrás de uma velha com um qualquer problema nas pernas e que se arrasta agarrada ao corrimão impedindo, com as ancas e o traseiro, que alguém a ultrapasse e dê primeiro o seu nome, se conseguirem tão banal felicidade, terão no relato deste vosso fiel amigo, a dica necessária para que possam debater tal assunto. Onde quiserem. Em colóquios, em ensaios, em peças jornalísticas ou, simplesmente, com a vossa porteira sempre ausente porque as vejo agora todas à minha frente. Ela só vos diz que isto é mau. Eu vou tentar “mostrar-vos” quão ruim é. E dispenso os direitos de autor.

À minha frente, as paredes são cinzentas.

Aqui e ali, há umas caixas brancas de onde saem calhas técnicas que vão serpenteando pelo cinzento a que se agarram. Como distracção, vou rodando, levantando e torcendo o pescoço à procura dos caminhos que percorrem, tentando descobrir-lhes o destino. São muitas. Não posso segui-las todas. Escolho uma, que acabo por reconhecer ser como todas as linhas que escolhemos ao longo da vida: acaba onde não quero. Se tivesse escolhido outra…Esta obriga-me – por teimosia, reconheço. Se quisesse, bem podia desistir – a baixar a cabeça e espreitar por debaixo das cadeiras. Era de calcular. Acaba numa simples tomada já sem espelho, de tantos pontapés que terá levado. (E por falar em pés noto, com a minha visão periférica, que umas pernas embrulhadas em horríveis meias ortopédicas se juntam num ápice. Arrisco um levantar de olhos e noto que outros me olham faiscantes, reprovadores e irados. Velha bruxa! Como se me passasse pela cabeça espreitar-lhe as cuecas, se é que as usa, bruxa velha).

Tento disfarçar e concentrar-me novamente nas paredes. Que parecem existir para meu entretenimento.

São cinzentas, as paredes. Sim, eu sei que já tinha dito isto. Mas repito-o apenas para deixar vincado que não é só essa cor que à minha frente se me depara. Embora em pouca quantidade, há quadros que lhe cortam a uniformidade. Podiam ser quadros artísticos, renascentistas, impressionistas ou cubistas. Mas não são. No seguimento da linha dos “istas” diria antes que tentam ser realistas. Como aquele grande e branco e sem moldura que à minha frente se planta. No meio do branco que sobressai do cinzento das paredes (está bem, já sei) há um coração enorme e perfeito, mais vermelho e certinho e real que os verdadeiros. Por baixo dele, escrito em letras pretas e garrafais, gordas e inchadas, alguém teve a ideia de escrever a frase curta e publicitária: “DÊ SANGUE”. Assim: Dê sangue. Como se isso fosse uma ordem a que ninguém pudesse fugir sob pena de ser acusado na rua, à boca pequena, em segredo: “olha, aquele ainda não deu”. E eu fico a olhar aquele balão deformado e a pensar que o meu coração deve ser ainda mais perfeito por não ter vertido nunca uma gota que fosse. Nem batido em excesso, o que o faria gastar mais, como os carros de grande cilindrada. Tenho pena que os corpos não sejam transparentes porque, caso fossem, eu poderia ser como aqueles maníacos do sexo. Abriria a gabardina e mostraria o meu. Mais inchado e perfeito que o dos outros.

Mas eis que divago. Se o faço, é porque aquela ordem não pára de me saltar à vista, por mais que eu desvie os olhos. Para outros quadros. Poucos. Mas todos eles de bebés. Cabeças de bebés, bebés inteiros, de lado, de frente, para cima, para baixo. Com olhos grandes abertos, de olhos fechados talvez pequenos, a rir, a chorar, a fazer beiço. Tantos bebés. Tantos quantos os prantos que se ouvem nesta sala. De paredes cinzentas (‘tá bem) onde só estou porque tenho uma gripe.

Mas não são apenas os quadros a quebrar a cor das paredes (está melhor?) porque o cinzento é, ele próprio, um tom em vias de extinção. Com o passar dos anos – penso eu – a sua rigidez e fixação foi-se desvanecendo e sucumbindo, deixando ver a alvacenta cor do estuque que lhe servia de base. E os desenhos que a sua decadência formou são talvez os quadros que mais me interessam, mais me prendem a atenção.

Porque neles vejo silhuetas, contornos, que me lembram coisas que nem ao Diabo lembrariam. O perfil de um político, desses que nunca passaram por ali a não ser em vésperas de eleições quando, mesmo assim, largam no ar os panfletos evitando o toque alastrante com as peles rugosas e feias que contrastam com o brilho dos seus dentes radiosos e claros. Ali, à minha esquerda, eu vejo um penico. Sim, pasme-se, um penico. Talvez seja ele o causador daquele cheiro que me invadiu quando entrei. Um odor repulsivo, ácido, agoniante. Mas não. Esse cheiro não pode nunca vir de um penico que o acaso desenhou numa falha de tinta cinzenta da parede (que querem? Fujo sempre para aí!). O mais certo é libertar-se dos frascos de urina que as pessoas trazem para análise e dos quais discutem a cor, e a dificuldade em acertar com o gargalo, e a vontade que não tinham de a verter e isto porque, da última vez, os triglicéridos estavam muito altos e os diabetes também e o colesterol então nem se fala. Podia lá ser! Tinham que ser as análises a estarem trocadas, disse ela ao senhor doutor, a lambisgóia, a velha bruxa que ainda há pouco me tinha fechado as pernas, como se eu conseguisse ver alguma coisa por baixo daquela pança que se deve empanturrar com molhos e doces e vinho, sim, tens mesmo cara de quem gosta dele, velha bruxa que não te calas e não largas a vizinha, que nem tem cara de doente, mas deve vir para aqui passar as tardes a ver televisão a cores porque só tem uma a preto-e-branco, comprada quando o homem foi à lua e só o facto de ver o vestido da apresentadora do programa da tarde compensa o não se conseguir ouvir nada. Vai para casa, ranhosa, que ranhoso estou eu e me estão a acabar os lenços de papel.

Mas, no fim, aquilo nem sequer é um penico. Aquela saliência do lado esquerdo…não, é mais um caracol. Ou um regador? Quero cá saber. Penico, caracol ou regador, vai tudo dar no mesmo. Eu quero é que me chamem. Libertar-me deste calor doentio que torna o ar pestilento. Ouvir o meu nome inconfundível ser gritado no altifalante tão rouco que não se percebe nada. Ou então que venha a empregada escanzelada e com aspecto de mal lavada, chamar-me com um papelinho na mão e que, com uma voz estridente, esganiçada e irritante, tire da boca o antropónimo que, afinal, não é o meu. Coitada! Não se deve sentir confortável com o microfone na mão e ainda bem. Sempre posso distrair-me um pouco, olhando o vinco das cuecas tamanho século passado que se nota por baixo da bata cor-de-rosa. Tem uma cara embirrenta e faz um ar importante de cada vez que entra em cena para anunciar o escolhido. Empertiga-se muito tensa, abrindo janelas entre os botões de uma bata ainda mais magra que ela e faz uma pausa hitchcockiana, como se fosse uma actriz da Lapónia pronta a recitar “Os Lusíadas”. Depois diz, já a virar o traseiro para o eleito: gabinete quatro. E aquele “uá” da primeira sílaba da última palavra, fica a vibrar-me a membrana auditiva que me empurra o pingo pelo canal mal vedante e me deixa na dúvida entre o assoar-me ou coçar o ouvido com a unha do dedo mindinho. “Uá, uá”. Será que as pessoas não vêem que ela faz de propósito? Ninguém repara que ela não fala no três ou no dois ou no um? É sempre o qUAtro. Como se não houvesse mais gabinetes ou os outros médicos tivessem adoecido todos. Pudera! Se nos seus prováveis seis metros quadrados estiver o mesmo calor que está aqui…

Simplesmente não se respira. Ou respira-se muito mal. Nós, os padecentes, os adoentados, numa tentativa de fuga à morte por invasão de células mal formadas, que é como quem diz com falta de educação, antecipamos no meio destas cinzentas paredes o calor que há-de ter o Inferno a que, vindo aqui, tentamos fugir. Esta temperatura é viscosa, condutora e conservadora de cheiros nauseabundos, falsamente aromáticos que, pelo contrário, libertam no ar o álcool da porcaria imitadora dos perfumes que não podem comprar. A eles, juntam-se os cheiros do cocó das crianças que não largaram as fraldas; as bufas incontinentes dos velhos que sub-repticiamente levantam a nádega enquanto guardam a esperança de não ter feito barulho; ou o cheiro do chulé que sobe numa espiral contaminadora, vindo daqueles pés de descalçados sapatos, cujo chinês garantiu, sem se perceber que dizia, que alargariam como sempre acontece com o cabedal e que, afinal, se mantiveram inalteráveis no número marcado acima do correcto, simplesmente porque o plástico só alarga e não se molda a suados pés.

E eis que o meu vizinho de cadeira, que dormitava angelicamente – lançando pelo meio alguns roncos – encostado a uma bengala moderna de cinzento PVC, gordo para a frente e para os lados e com as pernas tradicionalmente escachadas obrigando-me, a mim, lingrinhas e educado, a apertar as minhas num desconforto entalado a meio delas, eis que ele, dizia eu, é chamado pela minha modelo das cuecas vincadas inevitavelmente para o gabinete quatro. Levantando-se a custo, apoia a sua manápula grossa, calosa e peluda, no meu ósseo ombro, frágil e sensível. Este, ao menos, pede desculpa. E eu, cobarde civilizado, descendente inibido de indelicadas respostas, abro-lhe a boca, mostrando o meu sorriso paternal e desajeitado, amarelo nos dentes brancos e condescendente em antítese com a minha vontade. Patrício se chamava ele. Como se Patrício fosse um nome. Patrício é parente e todos somos parentes de alguém. De mim até, que podia agora elegê-lo como tal, dado o alívio que um outro meu parente, tão murcho quanto ele, bruscamente sentiu.

A que cogitações me entrego. Vagueio perdido entre o refilar doloroso do meu nariz e os apitos absurdos do meu peito congestionado. Quando inspiro, trago agarrado um som cavo e trepador mais parecido com uma sirene de som tonitruante a chamar para o almoço. Quando respiro, estalam sons melodicamente mal formados entre canais da minha garganta. Não há palavras que os possam definir. Se as houvesse, ficaria aqui o registo do que pode ser uma composição contemporânea aquando da ausência de musas inspiradoras. Soaria mais ou menos assim: “♫VZUMmmmmm, troc-raq-troc – silêncio – VZUMmmmmm, troc-raq-troc♫” a que se juntaria o troar ribombante dos dois tubos de escape do meu nariz. Eu sei, eu sei que estes inoportunos guinchos advêm do consumo do tabaco. Do fumo acumulado que paira nos pulmões e que, certamente, dará ao meu interior o aspecto de uma manhã sombria e gélida envolta em nevoeiro. Se não tenho cuidado, se não arrepio caminho, ainda um dia me sai o Dom Sebastião pela boca. Tenho de abandonar os cigarros. Pensamento repetitivo de cada vez que me constipo. E sempre esquecido quando a gripe se vai embora.

E, por isso, é bom ficar agora sem ninguém ao meu lado e deixar que o meu peito se eleve livremente, sem tentar omitir a soltura de tão absurdos sons. 

Mas é sol de pouca dura.

O vazio ainda quente da cadeira do lado, depressa é preenchido por um novo rabo, grande e revestido a preto viúvo de alguém que, maternalmente, senta nas pernas um catraio irrequieto e de veias repletas de um sangue muito mais novo e vermelho que qualquer um de nós ali. Qualquer dia, um qualquer cartaz branco sobre uma parede cinzenta, o assediará para que o dê. Por agora, anicha-se simplesmente no improvisado conforto das pernas da avó. Que, mercê dos desajeitados ajeites do garoto, se vão expondo um pouco acima dos joelhos, deixando ver as meias de vidro castanhas e feias que, em lugar de subirem perna acima, se enrolam e seguram numa bainha escura, em contraste com a branca cor da pele flácida e pouco inspiradora.

O menino tem um carrinho na mão. E, esperto o gaiato, sabe já que os carros servem para andar. Numa estrada, de preferência. E naquela cabecinha de notório improviso imaginativo se formam já estradas e montes e vales. Nos braços da avó, nas pernas branquinhas e gordas da avó, nas mamas abundantes da avó. Que sacode as rodas estriadas de cada vez que lhe passam por aldeias mais sensíveis, de romarias já esquecidas, semelhante a muitos e abandonados recantos deste país.

E não ouço o meu nome.

Ouço apenas o ruído constante e ininterrupto das vozes que não param de contar coisas. A orelhas que não querem ouvir. Querem só que se cale o interlocutor para que possam eles, por sua vez, falar dos assuntos por que tanto anseiam: as doenças. Estas são inevitavelmente o início das conversas que, depois, no aproveitamento de uma palavra, depressa passam para os filhos e o que eles fazem, deixando desamparados os pais cheios de maleitas e apegados por obrigação aos netos. E a boca aberta, escancarada, da ouvinte. E a palma da mão a tapar-lhe a boca. Como é possível? Ah, veja lá. Anda uma pessoa uma vida inteira a criá-los, para depois nos fazerem essas desfeitas. E o doente do lado, onde a conversa oficialmente não chegou, vai ouvindo sorrateiramente as palavras das vizinhas. Não é que o assunto lhe interesse, mas à falta de melhor para fazer…e depois, já balanceado na narrativa alheia, começa a acenar com a cabeça deitando, de entremeio, uma espreitadela ao peito avantajado da mulher. Ela repara, mas ele disfarça. E a narradora começa a fazer gestos à ouvinte de que há um parasita ali ao lado. Enquanto fala. Sem se calar, não vá depois o silêncio ser aproveitado pela nova amiga e ter ela que passar a ouvinte, roda apenas o corpo voltando as costas ao intruso. As costas e o rabo. Dando agora ao homem outras paisagens para apreciar, cansado que já estava das anteriores.

E os meus lenços de papel estão no fim. Quando o pingo do nariz está ainda muito longe de lá chegar. E ouço o miúdo que diz, baixinho mas descarado, para a ama-avó: “ó ‘vó, este senhor toca apitos lá dentro”. Mas a avó é mouca que nem uma pedra. E, por isso, ele repete mais alto. E a avó, educada, manda-o calar sem sequer olhar para mim. Mas todos os outros olham e fazendo um ar condescendente logo desviam os olhos. Que rosto verão os meus recém aliados na doença quando para mim olham? Provavelmente, a mesma cara de estúpidos impotentes que eu noto nos deles. Peles macilentas, amareladas, de olhos cabisbaixos e errantes. Fartos de olhar para cima, olham agora os seus próprios sapatos. De um plástico preto e luzidio uns, cheios de lama ou de produtos parecidos e também naturais, outros. Há-os para todos os gostos. Abertos com fivela, fechados de atacadores, botas que não deixam ver as meias, meias meias de tão curtas que deixam ver o princípio das pernas, pernas ao léu e pernas pudicamente cobertas, com saias repuxadas sobre os joelhos grossos e vermelhos do calo provocado pelas escadas limpas e enceradas.

E o altifalante vai desfiando nomes como um papagaio também constipado que os tivesse decorado todos. Agarrando com raiva o nariz com o meu último lenço, miro, também eu, os meus sapatos na esperança de entretanto ver chegar a minha amiga empertigada do vinco saliente das cuecas chamar por mim. E noto que também os meus já conheceram melhores dias de graxa. Disfarçadamente, esfrego-os na calça oposta do meu fato de flanela. Revejo-os. Melhoraram consideravelmente, as calças é que talvez não.

Levanto os olhos para aquele ponto certo onde certamente aparecerá a minha amiga. Que agora não vem. E mais uma vez, me ponho a observar, um por um, os meus companheiros da desgraça. Este é o verdadeiro Portugal radical. Conhecem as doenças tão bem como o altifalante os nossos nomes. Reumático, espandilose, hipertensão, ciática, cirrose, menopausa, bicos de papagaio, ansiedade, falta de ar, dor de dentes, caspa, calos, panarícios e outros mais íntimos que só se podem dizer ao senhor doutor e mostrar ao senhor doutor, que não vai contar a ninguém porque é o senhor doutor. Ai que eu ando com umas palpitações e uns calores, e eu? que ando à beira de uma cirrose? eu bem digo ao senhor doutor que é daquelas papas de leite gordo que como todas as manhãs, mas ele não acredita. Ah, pois é coitada. Nós é que sabemos o que nos vai cá dentro. Eu então, ando aqui aflita das cruzes. Foi dos excessos que fiz em garota. Ai credo vizinha, e como é que a vizinha pode? Prefiro ter uma dor de dentes, do que dores nas cruzes, canhoto!

E eu para aqui esquecido. Com o meu lenço filho de árvores a aparar-me a gota filha da mãe, vou ouvindo esta cacofonia, esta peixeirada sem jeito, enquanto vejo as cabeças mexer, os lábios a articular, as mãos irrequietas dos corpos calejados pelos assentos já conhecidos.

Calem-se! Eu só quero que chamem o meu nome!

Que cara terei eu, se alguém olhar para mim? Terei os olhos esbugalhados por cima do nariz vermelho? Ou terei o ar doce de uma criança constipada à qual se cerram agora lentamente as pálpebras, já que não se fecham os ouvidos àquela melopeia monocórdica que embala, amolece e traz sonhos que me provocam saltos absurdos e inconvenientes em que, felizmente, ninguém repara? Não sei responder e para tal não me esforço, porque as persianas oculares de novo descem sob a música a uma só voz feita de tantas que me recuperam o meio sonho interrompido. Um sonho bom, sereno, tão doce que chego a esquecer-me do local onde estou, do mesmo modo que mais tarde, acordado, esquecerei o que sonho. Sei que há murmúrios de um rio, chilreios de pássaros… sopros de vento… umas mãos que me tocam…os pelos dos pulsos que se eriçam… algo que me arranha…

Merda! Chiça! Porra! Que raio de porcaria é esta, parecida com um choque eléctrico e que me faz saltar da cadeira? Será um arrepio? A brisa de um finado que acabou de vez dentro desta sala? Não. É simplesmente o estúpido do garoto que resolveu passar a fronteira ao volante do seu carro de plástico. O atrasado mental não vê, não percebe, que não tenho ainda as saudades fisiológicas do corpo da avó? Mas não preciso de reagir. Cravo-o simplesmente com um olhar fulminante e assustador, quase lhe enviando raios dos meus raiados olhos vermelhos, sonolentos e doentes. Ó ‘vó, este senhor ralhou-me, mente o puto, deixa lá meu filho que há pessoas sem paciência para ninguém, diz a pu…a pobre senhora mais interessada em que o neto não lhe faça birras. Porque mente ela também? Porquê, Deus meu, se sabe perfeitamente que qualquer alma ali despejada sofre de excesso de intolerância e impaciência. Eu, desgraçado ser humano com uma gripe, de constituição tão frágil como aquela a que os advogados dão a volta, abandonado à sorte de ser chamado por uma escanzelada de cuecas marcadas na bata ou por um aparelho insensível e roufenho, eu aqui estou, pronto a fazer-me estrada para um miúdo mal criado, a fazer-me ranho para um papel mal inventado, a abanar magrinho dentro do meu fato um número acima do que me ficaria bem. Milagre dos saldos e da vida! Ia lá imaginar que havia alguém tão magro como eu e com dinheiro para os comprar todos dentro dos preços da estação.

Mas não é só o fato que me fica a dançar. Também a camisa tem um colarinho apropriado para se ornamentar com um cachecol. Que não tenho. E por isso, porque a gravata com padrões de televisão avariada não chega para o apertar, sinto o ar entrar-me por cima e provocar correntes de choque aéreo em todo o meu corpo. E o pingo cai-me. E o lenço já não é um lenço porque se amarfanhou, se esfarelou todo com os meus pingos e o suor que lhe passei das mãos. Ou será que foi ele que me passou para as mãos tudo menos suor? E o pingo escorrega. Sinto-o a deslizar sem ter forma de o deter. Eu fungo, puxo para dentro de um modo ofensivo para a avó, que me olha enojada e punitiva. Fiz barulho, um barulho agora voluntário e nada consentâneo com a linhagem a que me proponho, e o pingo continua. Atrasei-me na reacção e ele já está naquele terreno desértico onde nada se notaria se tivesse um bigode. Não aguento. E, sem mexer a cabeça, rodo os olhos a confirmar a distracção de todos. Tudo está absorto ou a actualizar os sinónimos doentios. Se não for agora, nunca mais será. E, rapidamente, ergo o braço e atravesso-o por baixo do nariz, como se estivesse a coçar a face contrária. Ó ‘vó, este senhor assoou-se à manga do casaco!

Um pescoço, um pescoço branquinho e inocente é o que eu vejo ao meu lado. Chamem-me pedófilo, Frankenstein ou vampiro mas o que eu gostava era de agarrar aquele pescoço lindo e puro e são. São. São muitos os que agora me olham com ar reprovador, como se eu fosse a reencarnação de Jack o Estripador, o fugitivo à procura do maneta ou a cara de parvo do sapo Cocas. Estes radicais de um Portugal manso de costumes, procuram agora o costumado bode expiatório para todos os males que os afligem. Eu, homem bem vestido com um fato exemplar, sou agora o protótipo do enganador, do falinhas mansas que todos os dias os engana com o seu aspecto e a sua arte de convencer e que não é, afinal, mais do que um porcalhão sem maneiras e armado aos cucos fingindo que é mais do que eles. E tudo por culpa de um garoto, malcriado e chico-esperto que se aproveita da benevolência da avó, do não-te-rales da avó, para me encalacrar a mim. Eu, fiel súbdito e jovem esperança deste reino enquanto não souber fugir aos impostos. Porque há-de ser sempre esta a nossa sina? Porque andaremos nós pendurados em garotos de cueiros vestidos que nos entalam a todos, com as suas manias altruístas e heróicas de filme de série B, para depois se perderem feito parvos no meio do nevoeiro? Não, não é uma fixação, o nevoeiro. Como a cor das paredes cinzentas. É antes uma constatação deste povo mal fadado em que eu me incluo.

Agora já não tenho hipótese. Nem sequer absolvição. O finório desta sala acaba de perder o anonimato e converter-se, enquanto durar a sessão, no ranhoso do fato cinzento. Como a cor das paredes desta sala. (Oh, pá. Não me chateiem. Paredes cinzentas, paredes cinzentas, paredes cinzentas. Pronto, tomem lá que é bem aviado!) Paredes que, neste momento, são a minha única fuga. Vou voltar a decifrar os desenhos que os buracos de tinta deixaram e alhear-me desta gente que me olha como um criminoso. E, já que tenho a fama, vou ter também o proveito. Desfeito que está o lenço, vou limpar-me à manga do casaco sempre que me apetecer. E ensinar ao puto motorista que, quando tudo é nosso – neste caso, as ranhocas e o casaco – nada nos impede de os usar como bem nos aprouver. E pode até, se ele voltar para esta estrada, que o seu carro derrape na falta de aderência que o acidente da minha constipação causou. Aos outros, velhos decrépitos e pudicos e fingidamente asseados que me rebaixaram na sua avaliação, mostrarei que esse rebaixamento me fez superior e estou bem acima das suas críticas por saber como ignorá-las. A partir de agora…

Mas, espera!, isto ainda não acabou.

Já vos disse (disse?) que à minha direita se senta a viúva com o miúdo que agora lá não está. E à minha esquerda? À minha sinistra – como dizem os italianos – há um rebordo saliente de parede como se eu estivesse no nicho do santuário de uma igreja. Em baixo, junto ao rodapé corroído pelo caruncho, repousa um caixote do lixo em plástico cinzento – talvez por exigência do decorador – com acesso ao interior pelas gretas de onde saem ancestrais cascas de laranja, tampas flexíveis de iogurte e outras porcarias dificilmente nomeáveis. Por cima, qual bolo coberto a natas, repousam os meus usados lenços de assoar. E na sua direcção verticalmente superior, o carrinho do puto escala a parede acompanhado de um “vruuum”. E perguntam vocês: e que tem a ver o fedelho com o caixote do lixo? Uma só palavra, respondo eu: vingança. Inocentemente, ponho-me a imaginar a altura em que o carro lhe escapa da mão e cai, perdido, no meio dos meus lenços. E – pasme-se – não é que acontece mesmo? Não é que o carro, talvez devido ao magnetismo da ansiedade dos meus olhos, se desvia da mão desajeitada do anormal acusador e mergulha directamente no paradisíaco inferno de papéis ranhosos? Vocês não sabem, não conseguem imaginar o júbilo, a alegria interior que eu sinto agora, vendo o pimpolho olhar indeciso para o caixote e para a parente distraída. E quando estica o braço, aguardo o milissegundo exacto para comunicar à minha vizinha: minha senhora, o seu neto está a mexer no lixo. E ela grita: Pedro, anda cá. E puxa-o por um braço. E ele chora, berra, incomodando-me agora numa tresloucada gritaria que, no entanto, facilmente transformo em música imperialista para o guerreiro que se encosta depois da árdua tarefa de ter vencido a batalha. É das escrituras: David ranhoso a derrotar o queixinhas Golias.

Respiro fundo, apesar dos obstáculos nasais. Deve faltar agora pouco para que chamem o meu nome e me possa libertar da cena comovente de uma avó a ralhar a um neto que berra. Com a certeza da regra do quem ri por último.

Mas alguma coisa baralha os meus planos.

Alguma coisa não, que é sacrilégio.

Eu nunca vi nada assim. Que se lixem os ranhos e os carros, os putos e as avós. Esta beleza nada tem que ver com cenas mundanas ou ralhos e birras. Esta maravilha é o antídoto de todo o veneno que eu via ali. Que coisinha tão frágil, tão delicada. Esta não veio aqui para ver televisão. Está mesmo doentinha, coitada. Nota-se no seu andar titubeante, incerto e difícil. Nota-se no seu alheamento aos outros, introspectivo nos seus males. Não consigo dela desviar os olhos. Sem conseguir, no entanto, que eles se cruzem com os seus que fixamente miram o chão. Tem o cabelo castanho-escuro com laivos de um castanho mais claro, lindos a cair sobre a gola da camisa que lhe sai branquinha por debaixo da camisola castanha e a fazer conjunto. A testa não é muito alta, mas denota naquele rabisco capilar e central que nela cai uma teimosia que só lhe deve ficar bem. Os olhos, agora mortiços porque doentios, são da cor dos meus e, tal como eles, de um brilho agora ausente mas que lhes deve dar um aspecto radioso quando sã. O rosto é cheio, um pouco amarelado pelo mal que a atormenta, mas deixando adivinhar um rosado das bochechas no regresso da saúde. E aquele sinal, meu Deus, aquele sinal divino no sítio exacto da covinha que faz no queixo, logo abaixo dos lábios. Lindos, grossos, sensuais como eu nunca tinha visto e que já imagino a beijar os meus. Depois, noto-lhe sob a camisola grossa o redondo dos seios, talvez um pouco descaídos por não suportar o soutien mas, mesmo assim, apelativos à minha lascívia. A barriguinha é talvez um pouco proeminente, mas não destoa no conjunto onde umas calças de ganga deixam adivinhar umas pernas longas e bem torneadas.

                       O altifalante rosna um nome.

Sem que ela o saiba, acaba de ser eleita a minha Dulcineia. Se aquele parvalhão, que via gigantes onde havia moinhos, tinha a sua amada, porque não posso eu ter a minha? Eu que sou muito mais real do que um Dom Quixote com defeitos visuais a querer combater invisíveis inimigos; ou que um Dom Sebastião verdadeiro a querer batalhar exércitos e a perder-se na fumarada da fantasia; ou que um…um Hitler. Não, o Hitler também era real. Mas aqueles milhões que o apoiavam, os milhares que o rodeavam e as centenas que com ele privavam, não podiam ser, pois não?

                                   Gualdino!

Que importa. Eu quero é ter a tenacidade, a fixidez que eles tinham de fazer seu aquilo que desejavam. Contra tudo e contra todos.

                                   Gualdino!

É o meu nome que agora chamam. Mas se eu responder, é o dela que ficarei sem conhecer e não posso dar-me a esse luxo. Porque a sala está a ficar com menos gente. Como se chamará ela? Que nome cairá como um manto sobre aquele corpo que me atrai? Porque não olha ela para mim? Fácil. Porque sente por aquela sala a mesma aversão que eu senti. Porque sabe não ser possível haver ali uma pessoa como eu.

E desistem de chamar o meu nome. Passam à frente e chamam um qualquer palerma que se semi-curou só por saber que ultrapassou alguém. Os meus olhos não se desviam dela. Que mal terá? Que doença será a dela, a precisar do meu apoio forte e comovente? E os nomes não param de ser chamados. Agora com uma rapidez que antes era inimaginável. E a farfalheira não pára e o pingo também não. Só espero que não me olhe enquanto o limpo à manga do casaco. O miúdo já não é problema. Zarpou com a avó de ao pé de mim.

Eis que a chamam: Rosa. Mas há ainda alguém que se chame Rosa? Um nome provinciano, humilde, carregado das histórias antigas com que a minha avó morreu a contar. Uma flor desabrochada naqueles lábios de feitiço. Já estou a ver os novos cartões de visita: Rosa e Gualdino. Parecem até dois cavaleiros medievais da Távola Redonda.

Mas tenho que ser frio e calculista, coisas que normalmente não sou. Se ela entrar, eu fico à espera e ou a deixo ir embora ou perco a minha consulta. Tenho que ir eu primeiro. E levanto-me e corro a andar mas com passos avantajados e já aos berros. Porque agora era a minha vez. Porque só tinha ido à casa de banho e não ia deitar fora tantas horas de espera. Rosa continua sem levantar os olhos enquanto a minha ex-amiga das cuecas foleiras me olha desconfiada. Está bem, diz-me ela, entro a seguir à senhora. Não serve os meus intentos. Não a posso deixar fugir. E vocifero rufia, gesticulo esganiçado que não, que isso é que era bom. E a Rosinha calada e sem, mesmo assim, me olhar. O médico está cansado. A empregada também e o elástico das cuecas deve ter perdido a rigidez. Leva-lhe uma mão ao vinco superior enquanto demonstra não estar interessada em escândalos de final de dia. E eu ganho.

Dentro do gabinete, os fluidos nasais e a voz roufenha falam por mim. A consulta decorre no que eu penso ser ritual e normal mesmo para quem não está apaixonado. Especado e sentado, vejo a luz não de Rosa, mas da careca do médico que brilha. Ele não tem vontade de contemporizar e eu tenho a minha pressa que ele não compreenderia. Por obrigação profissional, ainda me pede para abrir a boca e deitar de fora a língua. E espeta-me com um pau pela boca dentro. Pede-me com maus modos, desinteressado e farto, que faça aaaaaah. Mas antes de chegar ao agá já a minha gruta de topo ensaia um vómito daquilo que não comi. Cansado, confirma aquilo que eu já sabia e que souberam todos os pacientes na sala lá de fora. Eu tenho uma gripe. Só me apetece dizer asneiras. Porque é avaro em novidades, ao menos que me receite o modo de as contornar. E é o que ele faz, como que sentindo o que penso e pressentindo o que anseio. Escreve. Se ele me dissesse o quê ou não se refugiasse numa letra de conjura com farmacêuticos, também eu o poderia ter feito. E teria evitado a caminhada até ali. Mas assim não teria conhecido Rosa. Que, lá fora, espera por mim sem saber que depois eu esperarei por ela. Coitadinha. Como deve estar a sofrer enquanto eu lhe roubo o tempo. Mas que queres, amor? também eu estou doente. Depois de as escrever, o médico relata-me num monocórdio enervante as doses e as horas dos químicos salvadores. Devo ter cara de estúpido, de iletrado, de atrasado mental. Quero ir-me embora porque já tenho o que quero! Mas será que não se vê na minha cara que eu até sei ler? E calado saio. E mudo passo por ela. Que sem me olhar, entra e se esconde atrás da porta que fecha.

Fico ali, feito sentinela de papel na mão. A minha antiga amiga das cuecas olha-me de esguelha. Como me não movo, ao contrário da Terra do Galileu, acaba por vir ter comigo e dizer-me que já me posso ir embora. Mas eu respondo que não, que quero ficar mais um pouco a olhar aquelas paredes de um azul-celeste. Olha para mim e olha para as paredes que para ela são vermelhas do Inferno que ali passa todos os dias. Depois das paredes, olha-me de novo e, numa desistência empertigada, vira-me as costas onde o vinco das cuecas voltou a deslizar.

Porque demora ela tanto? Que tamanho tão vasto de tempo tem o médico a perder a mais do que perdeu comigo? Despercebidamente, apuro os ouvidos para lá daquela porta. Ele, besta insensível aos rastejantes males humanos, que comigo não foi mais que um corriqueiro Dr. Jeckill, estará agora transformado num hediondo, sádico, louco Mr. Hyde? Será que lhe pediu para se despir? Será que ela está neste momento e atrás daquela porta, inocentemente nua? Solitariamente indefesa? E que ele, com a justificação do seu ofício, a apalpa em locais que eu, desde há minutos atrás, já reservei para mim? Eu abro aquela porta. Eu entro de rajada por ali dentro. Não. Tenho que me controlar. No fim, é apenas um médico com a sua paciente. Paciência. Paciência e auto controlo é o que tenho de ter. Mas se eu me encantei com ela, facilmente com ele terá acontecido o mesmo. E ele tem mais armas que eu para a devassar, para se imiscuir, para a ver ao milímetro. Aqui, estou declaradamente a perder. Eu sou o voyeur escondido nas folhas da copa da árvore. Ele está sentado no parapeito da janela aberta de par em par. E consegue ver o que eu só imaginei. Se calhar, muito provavelmente, a porta até está fechada à chave. E a minha ex-amiga das cuecas? Não achará ela estranha a demora do médico com esta doente? Não notará, enquanto o elástico desliza ancas abaixo, que o tempo está a exceder os limites do razoável? A não ser que…a não ser que ela esteja feita com ele e o recompense assim de um dia inteiro a enviar velhos caducos e carunchosos para o gabinete quatro. E que depois ele, em sinal de gratidão, a recompense a ela com umas cuecas novas de elástico bem tenso. Já não aguento esta tensão. Impulsivo, alcanço a empregada e pergunto-lhe se não acha que esta consulta está a demorar demasiado tempo. Como se usasse óculos e sem mover a cabeça, olha-me de baixo para cima e responde-me que o tempo das consultas é tão linear como o azul das paredes. Fico sem perceber que quer ela dizer com aquilo. Mas sem me dar hipótese de uma acção de formação, volta-me as costas cadavéricas de ossos a tilintar e onde uma mão furiosa e repentina agarra e puxa umas endiabradas cuecas que teimam em mudar de sítio. E a porta não se abre. O problema é meu. Ninguém me mandou ver tantos filmes pornográficos passados em consultórios. Mas se eu os via, é porque a não tinha a ela e agora, que a tenho, eles assaltam-me a mente com porcarias, quando a devia ter lavada e pura. Eu vou abrir aquela porta. Mas eis que…oh Santos, oh Aleluia redentora das cabeças pecadoras, oh protectores dos constipados e afins, eis que ela abre a porta e surge, só e continuadamente triste, na sua ombreira. Nem a companhia do curandeiro teve a acompanhá-la naquele acto derradeiro de abandono consultório. Mal criado, besta, que merecia uma denúncia por incúria cavalheiresca à ordem dos médicos. Mas não posso perder tempo. A minha ignorante amada começa agora a ensaiar os passos que a levam para a rua. Nem, como eu, um papel leva na mão. Será que o biltre, o energúmeno, o troglodita, o cabrão, acha que ela não tem doença nenhuma? Que é como as outras, que vai para ali passar o tempo? A minha raiva volta a crescer. Já não me lembro do pingo, nem da gripe, nem de nada. Só me apetece, mais uma vez, entrar porta dentro e desancá-lo. Mas não a posso perder de vista. Os meus olhos enternecidos acompanham-lhe o andar trémulo, a pose pesada, o erectus curvatus. E sigo-a. E persigo-a. Anjo guardador de rebanho de uma ovelha.

E, já na rua, busco na ansiedade as forças para me apresentar. Os meus passos encaminham-me inteligentes até ao seu corpo em movimento. E quando estou a um palmo daquele perfume, a um tiro de uma palavra, ela, finalmente, olha para mim. E o meu corpo magro divide-se verticalmente em três. Uma parte está ainda atrás de si, a do meio está ao lado, enquanto a terceira já se encosta ao seu ombro. E ela vai parar. Porque eu lhe digo olá. E então tem de parar. Mas não pára. Antes pelo contrário, o seu corpo ganha impulso para desviar o ar à sua frente. Sem levantar muito os pés, porque o seu padecimento não lho permite. E sinto que o seu sapato bate no meu. Depois, não é amor. É simplesmente uma lei da física que ordena que ao tropeçar em mim, se estatele de imediato no chão.

Estranhamente – vá lá descobrir-se as nossas razões mais recônditas – não a ajudo a erguer-se. Aproveito antes a sua pose humilde e reverenciadora para lhe comunicar o mais solenemente possível:

— Desculpe. Quero que compreenda que fui tocado pelo amor à primeira vista. Estou apaixonado.

E perante os seus olhos atónitos pela dramática situação, limpo, comovido e ruidoso, o nariz à manga do meu casaco.

 João J. A. Madeira

Comentários

  1. Et voilá! Um texto levezinho , bem-humorado, capaz de fazer o leitor olhar para si mesmo, refletido no outro. Venham mais!

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    1. Inspirador centro de saúde, visto aos olhos do João, perdão Gualdino, que retrata duma forma divertida e figurada o que se passa nas salas de espera destes centros!

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  2. O texto é lindo como vem sendo hábito num escritor como o João. Acho que um. Blogue é importante não só para d ivulgar o que se escreve mas também como divulgação d o aut
    Gina l. Eu pessoalmente acho que um blogue é impotl4

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    1. Obrigado, caro Anónimo/a, pelas suas palavras. Tentarei melhorá-lo logo que tenha disponibilidade. Os leitores merecem

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